sexta-feira, 16 de junho de 2017

Para os períneos, com amor.

Hoje escrevo para todas as mulheres que tem me enviado seus relatos de preparação de períneo para o parto e para o/as profissionais envolvidos, mas em especial, escrevo para as que me enviaram seus relatos de sofrimento. Sinto muito e te envio muito amor para sua cura deste processo. Que um dia tenhamos sabedoria o suficiente para caminharmos sempre nas estradas do amor.


Em algum lugar estamos falhando. Falhando gravemente enquanto mulheres e enquanto profissionais. Em algum momento nosso discurso está falho e ferido.
Se uma mulher realiza todos os dias as orientações de preparação do períneo para o parto, as quais geram pra ela dor e sofrimento e dia após dia ela repete o mesmo ritual de auto-violência, estamos falhando em algum ponto da jornada. Se esta mulher ainda não é capaz de dizer não para aquilo que lhe machuca e faz sofrer estamos falhando em nossa jornada de empoderamento feminino. Saber dizer não é a raiz que sustenta este florescer. Não permitir ser machucada em sua intimidade é um ponto básico deste processo, sem nãos fortes e consistentes as raízes apodrecem e o florescer desta árvore do empoderamento não se sustenta, não se sustenta porque está profundamente ferida e continuamente se machucando.

O corpo têm memórias de nossas ações e experiências e a memória que estamos construindo e instalando nas vaginas é de dor e sofrimento. Estamos calando os nãos numa violência sutil que não tem culpado nem agente, que se mascara docemente de falso empoderamento.

Antes de falar de períneo íntegro precisamos falar do não. Do não para tudo aquilo que te fere, que te faz sofrer. Precisamos falar do amor, do prazer, do despertar do corpo. Dialogar sobre os desejos, sobre os limites e sobre os caminhos.
Não estou dizendo que a preparação do períneo para o parto é a vilã. Nós é que somos quando incentivamos a auto-violência. Este caminho deve ser suave, de autoconhecimento, de amor, de descobertas. Um caminho que possibilite a cura de traumas e a transformação de dores guardadas por tempos nas vaginas. A questão não é o que se tem feito (massagem, epi-no, etc), mas sim como se tem feito. Estamos usando as estacas para amparar a plantinha que cresce ainda sensível ou para destruir suas raízes?

Acredito que podemos traçar esse caminho para o parto com os mesmos elementos, mas a partir do prazer, do amor, do despertar do corpo e assim curar nossas vaginas dos séculos de repressão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sobre perineos, prazer e parto


    Cada parte de você carrega memórias de amor, alegria, dor, raiva, gratidão... Emoções gravadas na pele, músculos e sentidos, cada uma delas carregadas por queridos peptídeos e armazenadas para serem reativadas a cada nova experiência.     Um cheiro, uma música, um toque, muitos peptídeos e memórias.
     Couraças que te protegem do que não sabe lidar ou do que é difícil demais pra sentir. O toque movimenta, revira e mexe essas couraças. As vezes esse movimento trás a superfície boas lembranças e experiências, outras vezes traumas e dores que escondemos bem guardadinhos lá no fundo. Com o períneo não seria diferente.
     Perineo: do grego,  Peri "ao redor", Neo "do novo" ou Ígneo " ao redor do fogo",  o que o relaciona ao nascimento e também à força necessária para o equilíbrio energético e vital, representada nas figuras antigas como uma serpente de fogo enrolada na base da coluna, a Kundalini. Percebemos então , que certos termos científicos  ainda guardam uma relação com o simbolismo inconsciente.
    Este perineo que carrega o novo, o fogo, as memórias, e nossas experiências de prazer ou não,  é então tocado, esticado e manipulado pra que se tenha "garantias" de um períneo integro após o parto. E o que se faz com todas essas emoções e experiências guardadas ali? Tocar o perineo (assim como tocar qualquer parte do corpo) é tocar o sagrado, tocar a história e memórias vividas através e a partir dele. É preciso amor, cuidado, delicadeza e tesão também! Porque não? Preparar o períneo para o parto não é um protocolo a ser seguido mas uma experiência a ser sentida.
    Mais do que evitar lacerações, é preciso encontrar a conexão, o prazer e a entrega pra que possa se abrir e suavemente dar passagem ao amor. Trabalhar a partir do prazer e da entrega, gravando essas memórias neste corpo. Massagear com prazer e suavidade, como se toca uma flor que desabrocha lentamente. Um toque mais rude e ela que desabrochava, se despetala!
    A preparação do períneo para o parto te coloca de frente com sua sexualidade e te questiona: Como você se relaciona com seu ser sexual? Como você expressa sua sexualidade? Como você compartilha sua sexualidade com seu companheiro/a? Como você se relaciona com sua sexualidade grávida? O que é sexualidade e sexo pra você? 
   Receber a massagem perineal do companheiro/a é se propor a experimentar diversas formas desta sexualidade se abrindo para o toque e para o prazer e integrando o processo de gestar e parir a ela. Parir também é uma forma de expressão da sua sexualidade.
    Massagear o períneo e alongar com força e com dor ou com prazer e entrega, levam a elasticidade, certamente! Mas qual é a "qualidade" desta elasticidade que estamos buscando? Alongar o períneo é permitir a abertura da sua intimidade. Não basta um períneo elástico, ele precisa estar entregue pra que essa abertura ocorra com o amor necessário pra chegada de uma vida e a transformação de outra.
    Se queremos partos suaves, amorosos e orgásmicos, devemos nos preparar para eles com amor, suavidade e orgasmos!

Saiba mais sobre a preparação do períneo para o parto aqui


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Sem chance



Às vezes a realidade dura, crua e nua me toca os olhos.
Hoje, sem perceber, saí por acaso da minha bolha Namastê e dei alguns passos pelo mundo. Caminhei no corredor frio do último fio da dignidade humana. Frio do ar de chuva que cruzava o corredor, frio das paredes velhas e sujas, frio do medo de estar fora do namastê, frio das bundas ao vento nas camisolas-pacientes.
Velhos, novos, pretos, brancos, vermelhos, homens, mulheres, transgêneros, lado a lado no corredor apertado, tentando viver, ou talvez tentando mesmo é morrer.
Dois passos! Arregalo os olhos, paro e prendo a respiração por alguns segundos. Corro? Choro? Visto o jaleco e tento ser útil? Apenas voltei a respirar e caminhei com a minha inutilidade.
O almoço e o lixo se cruzam no estreito corredor entre pacientes, enfermeiras, acompanhantes.
Um velho tenta comer, mas a comida insiste em lhe fugir da boca.
A mulher da marmita diz:
"- Mulher adulta. Quem é a mulher adulta? A comida dela está aqui."
Quem é a mulher adulta? Por onde terá ficado seu nome? Sua história? Quem é a mulher adulta?
Sem nome, sem leito, sem chance...
Queria terminar esse texto com palavras poéticas,mas na minha cabeça somente ecoa: SEM CHANCE. SEM CHANCE. SEM CHANCE.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Curso de sexualidade, gestação e parto



O curso acontecerá nos dias 10 (das 9h as 18h) e 11 (das 9h as 17h) de Setembro, em São Paulo, próximo ao metrô Paraíso.
O curso propõe um mergulho profundo nos temas de sexualidade, períneo e parto tendo o autoconhecimento como base  para o trabalho com o outro.

Temas abordados:
-Sexualidade, emoções e parto
-técnicas para fluir a energia
-períneo: anatomia, biomecânica e simbologia 
-formas de preparação do perineo para o parto
-músculos, emoções e energia na preparação para o parto
-dor pélvica, tensão e posicionamento do bebê
-Exercícios para alinhar e equilibrar a pelve melhorando os resultados dos partos
-fitoterapia para cuidados perineais
-pós-parto: exercícios para alívio de dor, realinhamento postural e disfunções perineais 
O valor do curso é de R$ 650,00 a vista, até o dia 10 de agosto ou 3 x de R$ 250,00, sendo a primeira parcela em depósito e os outros cheques enviados por correio.
Após o dia 10/8 o valor a vista é R$800,00 ou 3x de R$ 350,00.

Para realizar sua inscrição envie um e-mail com seus dados e o comprovante de depósito.
Nome:
Tel:
Profissão:
E os motivos que a despertaram para realizarem o curso:

Dados para depósito 
Santander
Ag 1538
Cc 01002432-7
Cpf 336174528-41
Thatiane bortolozo menendez

Para pagar parcelado enviar os cheques pré-datados e nominais para:
Thatiane B. Menendez
R. Cubatão, 838 apto 64 – vl Mariana
São Paulo – SP
04013-003

Sobre a hospedagem:
Tem alguns hostels próximos e o valor varia de R$35 a R$50 o quarto compartilhado.

http://www.globalhostel.com.br/o-hostel.html
http://www.nomadeinartehostel.com

Dúvidas entre em contato; (11) 96422-5000

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Espaço de gestar, espaço para amar.


            É tempo de gestar, tempo de sentir, tempo de conectar.
É tempo de abrir espaços pra chegada do bebê.
Espaço de corpo, espaço de casa, espaço de mente.
Espaço na vida;  pra encaixar, pra acolher, pra mudar.
Espaço pra gestar.
Espaço pra nascer.
Espaço pra amar.
Espaço pra crescer.

Foi com a massagem que aprendi a importância do espaço. Deste espaço que é dentro, mas também fora. Deste espaço que é físico e abstrato, dentro, fora e em torno.
A gestação é mudança. Tudo muda. Você muda, as relações mudam, a casa muda, o corpo muda e pra mudar é preciso espaço, é preciso tempo e coração aberto e disponível.
O bebê cresce no ventre, e cresce... e cresce... empurrando, apertando, se encaixando nos espaços que o teu corpo lhe permite. Teu corpo se abre, se espreme, e as vezes dói. É o espaço. São dois corpos se conhecendo e se conectando. Se apertando e se abrindo, um encontrando espaço no corpo e na vida do outro.
Achar esse espaço as vezes dói. O ciático, a lombar, as costelas, o coração. Abrir mão de planos pra que outros planos possam fluir. Refazer os desejos, acomodar o dinheiro. Desfazer o escritório e encher de brinquedo. Travar as gavetas da cozinha, talvez mudar até a gaveta de calcinha.
A massagem Thai Yoga me mostrou como abrir, como fluir, como encontrar esse espaço de dentro pra fora. Abrir o espaço dentro pra que o bebê se acomode, se espalhe. Abrir espaço dentro pra que a mãe se expanda e acolha. Sentir no físico para que possa levar a outros níveis este espaço, pra que o bebê caiba, pra que o bebê se encaixe na vida.

(Para saber mais sobre a massagem Thai Yoga na gestação e pós-parto click aqui.)



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A garota da balsa

     
 Alaphuza, em Kerela é como uma Veneza rústica. Rios e canais cruzam a cidade por todo lado. As pessoas pegam balsas pra ir de um bairro pra outro e caminham por pequenas trilhas rodeadas de verde até suas casas.
      Foi numa destas balsas que conheci uma garotinha de 12 anos, não me lembro o nome dela. Ela falava um inglês perfeito, melhor que o meu. Estava com a mãe e uma irmã menor.
Na India é comum que as mulheres perguntem seu nome, idade e estado civil quando te conhecem. Ser ou não casada parece ser uma questão muito importante, despertando até olhares de compaixão quando descobrem que você é solteira. Mas a menina da balsa me surpreendeu:
- De onde você é?
- Qual sua idade?
- Você é casada?
- Qual sua paixão?

      Qual sua paixão????!!!! Quanta profundidade para uma menina de apenas 12 anos.

      Ela era tão entusiasmada com a vida. Ama estudar e disse que não queria casar, o que vai ser
complicado, já que sua mãe se apressou em fazer um gesto negativo com a cabeça dizendo que vai escolher o marido pra ela quando ela fizer 22 anos, assim como foi com ela e com todas as mulheres da família.
      A questão do casamento por aqui parece incomodar a grande maioria dos jovens, nem os homens e nem as mulheres desejam um casamento arranjado. Todos sonham com o amor, mas o casamento parece ser um fantasma que assombra o coração dos jovens. Alguns simplesmente preferem não casar e os homens tem a chance de arrumar a desculpa de ir trabalhar em outra cidade e fugir por algum tempo. Já as mulheres não tem a mesma sorte...desafortunadas mulheres...

Fico aqui pensando: Como será a vida destas mulheres? Como será dormir e acordar prisioneira de uma vida? Como será o sexo na vida destas mulheres? Quantas delas são estupradas em silêncio nas suas casas? Quantas delas encontraram a liberdade? Quantas delas encontraram o amor? Quantas desejarão em segredo ser engolidas pela terra? Qual será o destino da pequena da balsa?

      Então penso numa outra questão: se muitas destas mulheres desconhecem o prazer do sexo e muitas tem apenas a constante experiência da violência sexual, como será o parto delas? Como será o nascimento de um ser concebido na violência? De um corpo sofrido? Poderiam estas mulheres ter uma boa experiência de parto?

      Deixo estas perguntas ainda sem respostas, mas com o profundo desejo de que um dia todas as mulheres sejam livres pra viver e amar.