quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Antropologia...

                      Museu de antropologia da Cidade do México. Dispensa ser comentado.


                

 

História, ruínas e parto

       Fui visitar umas ruínas Maias no México, em Palenque. Um lugar lindo e cheio de histórias. Lá foi governado pela Reina Roja, que tem sua tumba lá mesmo. Ela foi a última rainha de uma sociedade matriarcal. Teve apenas filhos homens, então passou a coroa pra seu filho Pakall, iniciando assim o patriarcado naquele reino. Foi com Pakall que o reino se expandiu incrivelmente e viveu toda sua glória e depois sua decadência... Será porque conquistaram muito mais que podiam cuidar?


                                      
                                                                 Tumba da Reina Roja


          Entre uma ruína e outra, andando por dentro da mata chego a parte onde viviam as pessoas. Pertinho do rio, pertinho mesmo. Entre muitas árvores estavam as ruínas das casas e as histórias daquele povo que viveu ali muito tempo atrás e também o Tacho, segurança do parque.
           Tacho mora num vilarejo ali perto, embora o perto não acho que seja tão perto assim, mas é aí que começa a história e as ruínas vão ganhando vida na minha cabeça transitando entre tempos remotos e o vilarejo do Tacho. Compartilho aqui com vocês as coisas que ele me contou.

                                     


           Aqui em Palenque têm muitos Xamãs e parteiras. A gente daqui tem medo de ir no médico e só vai no Xamã.  As parteiras acompanham a mulher desde o começo da gestação. Preparam pra ela uma cama de Jolosim, também conhecido como Arból Palencano, para que tudo saia bem. Essa planta também pode ser usada pra fazer um chá para ajudar no parto.

         No parto do primeiro filho do Tacho o bebê não vinha, estava demorando muito, então a parteira pediu pra ele buscar essa planta e fazer um chá. Ele saiu pela mata até encontrar. Voltou e fez o chá, então o bebê nasceu.
         Depois do parto a mulher fica deitada por 5 dias para se recompor, para que os órgãos se reorganizem, já que o bebê nasceu e deixou um espaço vazio no corpo dela. Então elas só comem e bebem coisas quentes. Coloca-se brasa sob a cama delas para mante-las bem aquecidas. A mulher coloca um reboso (um tipo de tecido) amarrado na barriga pra ajudar o corpo a se reorganizar e durante esses 5 dias tomam todos os dias um copinho de garrafada de pimenta pra, como dizem: manter o corpo quente e evitar que o ar entre no ventre e impeça a recuperação deixando a barriga frouxa. Segundo eles, mulher que fica com barriga é porque não se cuidou direito no pós-parto, o que para mim faz muito sentido.

            Eu de certa forma concordo com esse lance da barriga e pós-parto, não exatamente assim, mas tenho visto que muitas mulheres que desenvolvem incontinência, bexiga caída e coisas assim abusaram do pós-parto... A tradição tem um sentido neh? Se existe até hoje é porque está dando certo.

           Tacho tem 7 filhos, quase todos nasceram em casa com parteira tradicional.

          As pessoas aqui acreditam que as vezes as energias ruins grudam em partes do corpo e trazem doenças, então o curandeiro limpa essas energias. Antes do curandeiro começar um trabalho, ele vai até a igreja e oferece uma vela e um incenso pedindo licença a Deus para curar aquela pessoa.















        Na antiga sociedade Maia que existia aqui as pessoas moravam em pequenas casas de pedras. Nessas casas tinham porões onde se enterravam os mortos, para que eles ficassem perto da família. Também tinham alguns temazcais (uma espécie de sauna), onde as pessoas se reuniam pra conversar e também pra parir! As mulheres em trabalho de parto iam com a parteira e algumas mulheres da família para esse temazcal e tinham os bebês lá, dizem que porque o calor ajuda a parir...Só sei que fiquei imaginando aquele lugar vivo e as mulheres parindo nos temazcalitos...





Um vilarejo chamado Atins

Atins... um daqueles vilarejos perdidos no mapa. Natureza exuberante e muito vento. A areia é fofa por todo lado. Andar 10 metros faz sentir como se fosse 1km. As pessoas andam rápido, muito rápido! Impossível pra quem vive no asfalto acompanhar.

Aqui  quem não é nativo é gringo. Tem pouquíssimos brasileiros visitando. Em Atins, todo mundo nasceu de parteira e a vó de todo mundo era a melhor parteira da vila. Depois conto algumas histórias sobre isso.

Enquanto escrevo este texto no meu caderninho de viagens é preciso parar para umas piscadelas na tentativa de tirar a areia dos olhos. Venta muito!

Na frente está o encontro do rio com o mar. Bem ao fundo, lá longe, atrás de um enorme banco de areia, o mar. As ondas parecem grandes, pois posso ver a espuma delas daqui.  Dois barcos a vela navegam lá, bem longe. Pescadores. O vento de Iansã conduz seus caminhos em busca do sustento.


A areia e o mar vem engolindo a vila a cada dia. Me disseram que logo ali, onde é água, já foi casa. Posso ver uns restos das construções quando a maré baixa. Alguns moradores estão trabalhando duro pra recuar um pouco as casas e  dar o espaço que o mar bravamente exige. Eles esperam preocupados as luas cheias, nunca sabendo se dessa vez Iemanjá leva ou não a casinha na beira mar.

É bem cedo e o sol já está forte. Alguns kitesurfers começam a alçar vôo dividindo o céu com carcarás e gaivotas. Minha letra fica torta porque o vento empurra meu lápis querendo contar sua versão da história. Barcos esperam tranquilamente a maré subir pra embalá-los.

As mulheres... Ah! As mulheres...Onde estarão elas? Aqui quase não se vê as mulheres nativas. Vez ou outra uma passa naquela velocidade atiniana indo ao mercado ou coisa assim. Dizem os homens, que elas ficam em casa fazendo rede de pesca e cuidando dos bichos e filhos. Aqui muita gente têm vaca, cavalo, galinha, pato, marreco e assim vai. As mulheres mais novas e solteiras, dizem que vão pra cidade estudar e trabalhar. Elas me parecem quase sempre ou estressadas ou bem desconfiadas. Mulheres de poucas palavras. As vezes me lembram animaizinhos acoados se escondendo do perigo, outras vezes vejo uma força incrível, filhas de Iansã! Deixam bem claro que quem manda na família são elas.


Aqui tudo é difícil. A vida é difícil. Tudo é longe. Por sorte Iemanjá presenteia com muito peixe. De um lado gente que não tem nada, de outro, gente que vem de longe cheio da grana pra investir e pagar bem pouco pra quem contrata, mas o povo vai se ajeitando e se ajudando como pode.

Como eu já disse, todo mundo aqui nasceu de parteira e todo mundo morre de orgulho das parteiras da família. A pessoa mais nova que conheci que nasceu em Atins foi uma menininha, a Victória, 2 aninhos, filha de uma mulher que planta e vende ervas aromáticas e medicinais. Deve ter sido a ultima nascida de parteira em Atins. As mulheres também tem muito orgulho de terem parido em suas casas e muita alegria e simplicidade nas histórias.

As 2 ultimas parteiras que tinham aqui, bem senhorinhas, uma morreu e a outra foi pra cidade porque ficou bem doente. Ninguém quis ser aprendiz delas, então agora as mulheres tem que parir no hospital. Acho que elas não gostam muito disso não.

Uma delas me contou que teve 2 filhos, um em casa com parteira e o outro no hospital. Perguntei qual foi melhor, pra minha surpresa ela respondeu que no hospital! Fiquei curiosa em saber o porque... Ela me disse que porque a parteira fazia ela ficar sentada num banquinho pro bebê nascer, mas ela tava muito cansada e não tinha onde apoiar pra descansar as costas e no hospital ela ficou deitada, então conseguiu relaxar o corpo. Então fomos conversando mais e entendi que pra ela a sensação do cansaço tinha sido muito forte e por isso quando perguntei onde foi melhor ela de cara respondeu que no hospital, mas depois foi me contando que em casa é melhor porque você está na sua casa neh? Com as suas coisas, com a sua família, mais a vontade, mas tem o lance do banquinho. Rsrs.
Isso me fez entrar numa graaaande reflexão que compartilho no próximo post.

Já outra me contou que teve um menino, nascido em casa, com parteira. Todo mês a parteira ia na casa dela pra ver como estavam indo as coisas e conversar. Com 8 meses ela vê se o osso tá abrindo, se não tiver ela diz que têm que ir pro hospital.

Todo dia ela passava banha de mucura, um bichinho que lembra um canguru. Dizia a mãe dela que se passar a banha todo dia o parto não dói... As dores começaram umas 4h30 da manhã, o menino nasceu as 6h30 da tarde. A parteira ia, examinava e dizia que ainda não tava na hora e ia embora. Quando a dor apertou muito ela foi e ficou. Ela ficou sentada no banquinho encostada na rede, adorou o tal banquinho! O menino nasceu ensacado! (dentro da bolsa), chorou dentro do saco! <3

Dizem as parteiras de lá que o bebê não nasce na maré vazante. Mesmo quando já está com dilatação total! Tem que esperar a maré começar a encher e aí o menino vem!

Talvez se agente respeitasse mais as marés teríamos menos cesarianas...