segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A garota da balsa

     
 Alaphuza, em Kerela é como uma Veneza rústica. Rios e canais cruzam a cidade por todo lado. As pessoas pegam balsas pra ir de um bairro pra outro e caminham por pequenas trilhas rodeadas de verde até suas casas.
      Foi numa destas balsas que conheci uma garotinha de 12 anos, não me lembro o nome dela. Ela falava um inglês perfeito, melhor que o meu. Estava com a mãe e uma irmã menor.
Na India é comum que as mulheres perguntem seu nome, idade e estado civil quando te conhecem. Ser ou não casada parece ser uma questão muito importante, despertando até olhares de compaixão quando descobrem que você é solteira. Mas a menina da balsa me surpreendeu:
- De onde você é?
- Qual sua idade?
- Você é casada?
- Qual sua paixão?

      Qual sua paixão????!!!! Quanta profundidade para uma menina de apenas 12 anos.

      Ela era tão entusiasmada com a vida. Ama estudar e disse que não queria casar, o que vai ser
complicado, já que sua mãe se apressou em fazer um gesto negativo com a cabeça dizendo que vai escolher o marido pra ela quando ela fizer 22 anos, assim como foi com ela e com todas as mulheres da família.
      A questão do casamento por aqui parece incomodar a grande maioria dos jovens, nem os homens e nem as mulheres desejam um casamento arranjado. Todos sonham com o amor, mas o casamento parece ser um fantasma que assombra o coração dos jovens. Alguns simplesmente preferem não casar e os homens tem a chance de arrumar a desculpa de ir trabalhar em outra cidade e fugir por algum tempo. Já as mulheres não tem a mesma sorte...desafortunadas mulheres...

Fico aqui pensando: Como será a vida destas mulheres? Como será dormir e acordar prisioneira de uma vida? Como será o sexo na vida destas mulheres? Quantas delas são estupradas em silêncio nas suas casas? Quantas delas encontraram a liberdade? Quantas delas encontraram o amor? Quantas desejarão em segredo ser engolidas pela terra? Qual será o destino da pequena da balsa?

      Então penso numa outra questão: se muitas destas mulheres desconhecem o prazer do sexo e muitas tem apenas a constante experiência da violência sexual, como será o parto delas? Como será o nascimento de um ser concebido na violência? De um corpo sofrido? Poderiam estas mulheres ter uma boa experiência de parto?

      Deixo estas perguntas ainda sem respostas, mas com o profundo desejo de que um dia todas as mulheres sejam livres pra viver e amar.

Ave Maria das Indias

      Passei em frente a igreja, a missa já estava terminando, mesmo assim resolvi entrar. O mesmo deus do outro lado da Terra.
      A igreja era bem bonita e colorida, bem diferente das igrejas de São Paulo. Em alguns minutos a missa terminou. Fui me sentar de frente para o altar o fiquei alguns minutos olhando nos olhos de Jesus, sem orar, sem pedir, sem agradecer, contemplando e ouvindo o silêncio de seu olhar.
      Fui então sentar do lado de fora, num pequeno coreto, aos pés de uma grande imagem de Maria. Fiquei alguns minutos e aos poucos algumas mulheres foram chegando e se acomodando em uns bancos. Começou uma nova cerimônia, praticamente só para mulheres. Acho que tinha apenas uns 4 ou 5 homens.
      Lindo e poderoso! Várias mulheres cantando aos pés de Maria. Depois de uma linda canção começaram a rezar, acredito eu que o Pai Nosso e Ave Marias. Senti uma força tão grande vindo daquele círculo de mulheres aos pés da mãe, orando, cantando, pedindo, agradecendo, sonhando. A mãe e suas filhas, unidas.
      Eu não entendia uma palavra! (Em Cochim se fala malelalo)  Fiquei mais de uma hora ali ouvindo o padre e compartilhando a energia daquele círculo sagrado de mulheres.
      Maria mais parecia Iemanjá! Estava em pé dentro de uma concha e a capela era toda azul e rosa decorada com flores coloridas. A energia feminina brotando da água.
      Que lindo foi escutar a Ave Maria em malealo recitada num círculo de mulheres aos pés de Maria... Que poder!!