quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Sem chance



Às vezes a realidade dura, crua e nua me toca os olhos.
Hoje, sem perceber, saí por acaso da minha bolha Namastê e dei alguns passos pelo mundo. Caminhei no corredor frio do último fio da dignidade humana. Frio do ar de chuva que cruzava o corredor, frio das paredes velhas e sujas, frio do medo de estar fora do namastê, frio das bundas ao vento nas camisolas-pacientes.
Velhos, novos, pretos, brancos, vermelhos, homens, mulheres, transgêneros, lado a lado no corredor apertado, tentando viver, ou talvez tentando mesmo é morrer.
Dois passos! Arregalo os olhos, paro e prendo a respiração por alguns segundos. Corro? Choro? Visto o jaleco e tento ser útil? Apenas voltei a respirar e caminhei com a minha inutilidade.
O almoço e o lixo se cruzam no estreito corredor entre pacientes, enfermeiras, acompanhantes.
Um velho tenta comer, mas a comida insiste em lhe fugir da boca.
A mulher da marmita diz:
"- Mulher adulta. Quem é a mulher adulta? A comida dela está aqui."
Quem é a mulher adulta? Por onde terá ficado seu nome? Sua história? Quem é a mulher adulta?
Sem nome, sem leito, sem chance...
Queria terminar esse texto com palavras poéticas,mas na minha cabeça somente ecoa: SEM CHANCE. SEM CHANCE. SEM CHANCE.

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